FAMÍLIA

Sobre a Igreja, os católicos e as uniões homossexuais

As recentes declarações do Papa Francisco sobre uniões civis entre pessoas do mesmo sexo criaram expectativas no mundo inteiro e, sobretudo, no universo católico, sobre uma potencial aceitação dessas uniões por parte da Igreja. Não poucos têm exultado com isto, porque representaria de certa forma um novo “aggiornamento” da Igreja para com o mundo de hoje.

Enquanto católicos que somos e olhando para este mundo onde cada vez mais proliferam as famílias destroçadas, onde a pornografia domina a vida de tantos homens e mulheres, onde igrejas são incendiadas em países ditos desenvolvidos, faz-nos sempre confusão a vontade de que a Igreja esteja, em tudo, a par e passo com as ideias deste mundo.

A doutrina moral da Igreja, na qual está contida a sua proposta para a sexualidade humana, ainda que acreditemos que é um caminho para a liberdade autêntica, não é pêra doce num mundo que idolatra o sexo e insiste no prazer como fim último das relações (chega a ser cómico que haja quem acuse a Igreja de estar obcecada com a sexualidade). Neste contexto, o que a Igreja ensina sobre a homossexualidade surge sempre como algo difícil de ser aceite: se duas pessoas do mesmo sexo se amam, que tem a Igreja a ver com isso, ou até, contra isso?

Convém antes de mais deixar claro o que é que a Igreja diz sobre a homossexualidade, e que qualquer pessoa pode consultar nos pontos 2357 a 2359 do Catecismo. Podemos resumir o que é dito em cada ponto da seguinte maneira:

  1. Os actos homossexuais (e não as pessoas) são intrinsecamente desordenados, porque são contrários à lei natural e fecham o acto sexual ao dom da vida;
  2. As pessoas com tendências homossexuais devem ser acolhidas, amadas e respeitadas (i.e. não há espaço para nem se tolera a criminalização da homossexualidade);
  3. As pessoas homossexuais são chamadas à castidade, mediante a qual chegarão à perfeição cristã.

Não negamos que, no Ocidente, para a grande maioria dos homens e mulheres, estes pontos sejam tidos como um absurdo. No entanto, a Igreja não tem na terra a missão de agradar às massas, mas de cumprir a vontade de Deus. E, cumprindo a vontade de Deus, qualquer católico honesto sabe que será feliz e verdadeiramente livre na terra – exemplo disso são os milhares de santos que são venerados pela Igreja, muitos deles com histórias de grande conversão de vida. Ainda hoje há homens e mulheres que tendo vivido experiências homossexuais, após o seu encontro de conversão com Cristo, abraçaram o convite da Igreja para viver uma vida casta na sua condição. E são felizes. Aconselhamos a que assistam a este documentário com três histórias muito reais e inspiradoras de pessoas que aceitaram com alegria essa mudança na sua vida. Da nossa parte, o que mais queremos é dizer a todos os que vivem esta situação: a Igreja acolhe-vos, não vos expulsa – mesmo que para isso tenha de ser coerente consigo mesma e, com caridade, convidar-vos a mudar de vida, à imagem de Jesus que diante da pecadora disse aquilo que diz a cada um de nós: “também Eu não te condeno. Vai e não tornes a pecar” (Jo 8, 11).

Sobre a possibilidade de a Igreja vir a admitir a união de casais do mesmo sexo, e independentemente das palavras (ainda por contextualizar na plenitude) do Papa Francisco, a Igreja já se pronunciou, nomeadamente numa nota de 2003 da Congregação para a Doutrina da Fé. Muitos querem ignorá-la ou até menosprezar a sua autoridade – mas não é assim que as coisas funcionam na Igreja. Aquela nota é válida, goste-se ou não, até porque está sustentada nas três fontes de autoridade que são a Sagrada Escritura, a Tradição e o Magistério (Cf. Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina, 10).

Finalmente, a Igreja nunca poderia admitir essas uniões, pelo simples facto de que o termo “união” para os católicos é, por natureza, algo sério e implica, por isso, a união do corpo. Ora, é sabido que na Igreja Católica, a relação conjugal apenas pode ocorrer num casamento, porque essa união é sinal (ou sacramento) da união total, livre, fiel e fecunda entre Cristo – o Esposo – e a Igreja – a Esposa. Qualquer situação que esteja à margem desta realidade não pode ser reconhecida pela Igreja porque contradiz a Sagrada Escritura, a Tradição e o Magistério. Por isso, a união entre dois homens ou duas mulheres nunca poderá ser aceite nem promovida: tal seria o caso se a Igreja viesse a reconhecer uniões civis entre pessoas do mesmo sexo ou, por exemplo, uniões entre mais de duas pessoas (e.g. “poliamor”). Para a Igreja, a doação entre um homem e uma mulher é total e exclusiva, implicando a alma, o espírito e o corpo. Assim, não lhe pode ser indiferente a complementaridade dos corpos, a qual se expressa na sua sexualidade, porque unidos, formam essa totalidade a que chamamos “ser uma só carne”.

Sabemos que tudo isto é, para o mundo de hoje, algo completamente contracorrente, motivo de gozo e até de alguma incredulidade. Mas isto de ser contracorrente foi precisamente aquilo a que o Papa Francisco incentivou os católicos. Não tenhamos por isso medo de ser diferentes e cumpramos a nossa vocação: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, dando testemunho disso vivendo com caridade e verdade nas nossas famílias.

Vasco e Mafalda Almeida Ribeiro

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