SOCIEDADE

A degradação moral da indústria do entretenimento

Os Estados Unidos é um país curioso. É a maior potência militar e económica do mundo e partilha connosco os valores de uma cultura que tem os seus alicerces em Jerusalém, Atenas e Roma, como nos descreveu o Papa Bento XVI.

Há exemplos extraordinários que podíamos trazer daquele país: o dinamismo democrático; o envolvimento cívico dos cidadãos num país que tem – e protege – um excelente sistema de estruturas intermédias; ou o patriotismo saudável mais ou menos generalizado.

Por outro lado, infelizmente, há muitos maus exemplos naquele país. E são precisamente esses que temos a tendência de “importar” mais regularmente…

Vivemos em sociedades que abandonaram a Fé sobre a qual foram fundadas. São, por isso, sociedades burocráticas, técnicas e cinzentas, sem identidade, que se tornaram materialistas e individualistas. Em certo momento da história, prometeram-nos que uma sociedade livre, igual e fraterna se alcançaria expulsando Deus da equação. Tirámos Deus e a religião dos nossos altares domésticos e, como o povo de Israel em tantos momentos da sua história bíblica, voltámos aos ídolos. Não são ídolos de metal fundido, mas são ídolos velhos: o prazer, a fama, o dinheiro, o poder. Ao mesmo tempo, como sem Deus não há moral (como intuiu bem o ateu Ivan Karamazov naquela obra prima de Dostoiévski), o relativismo moral foi entrando discretamente na nossa cultura: “cada um tem a sua verdade”, gritam-nos; “devemos ser tolerantes, não podemos impor as nossas preferências pessoais”, ensinam-nos. E, aos poucos, calados e submissos, fomos cedendo terreno a essas ideologias, ao ponto de hoje ser obrigatório aceitar a opinião do outro, a não ser que o outro seja crente.

A pretensa liberdade transformou-se em absolutismo, a falsa igualdade em uniformidade e a fraternidade em indiferença. A promessa que nos fizeram falhou em toda a linha.  Mas nem por isso compreendemos o erro. Pelo contrário, continuamos a insistir na mesma receita, mas com maior intensidade.

Sobre as raízes filosóficas e históricas deste pensamento moderno, continuaremos a falar no futuro. Hoje, queria apenas partilhar algumas consequências práticas deste problema nos nossos dias e, daí, ter começado este texto com os Estados Unidos e os maus exemplos que de lá importamos.

Se quando falamos dos EUA nos vem à cabeça a Coca-Cola que bebemos da última vez que fomos ao McDonald’s; o novo iPhone que ainda há pouco foi apresentado; ou as eleições presidenciais, não tenho dúvidas que a maior influência que é sobre nós exercida a partir do outro lado do Atlântico vem da gigante indústria do entretenimento.

Se outrora os filmes da Disney – como a adaptação do clássico “Pinóquio”, de 1940 – promoviam, junto dos mais novos, uma moralidade sadia (“tens de dizer sempre a verdade se queres ser um menino de verdade”), hoje, no melhor dos casos, promovem uma indiferença em relação à moral: “No right, no wrong, no rules for me/ I’m free“, diz-nos a letra da música principal do “Frozen”, o mais popular filme infantil dos últimos tempos.

Mas como, também na moral, não há vazios, esta indiferença abriu as portas à introdução de uma nova moralidade de pendor liberal, que advoga uma nova antropologia. Assim, nos últimos anos, a Disney tem-se mostrado obcecada com a normalização de comportamentos homossexuais/LGBT nos seus desenhos animados. Nem os seus parques temáticos, onde já tem havido “paradas gay”, escaparam a esta fúria ideológica.

Naturalmente, tudo isto tem levado centenas de milhares de pessoas por todo o mundo a pedir aos administradores daquela empresa para acabarem a doutrinação a que estão a expor as crianças.

O problema destes desenhos animados e séries está nos seus criadores e nos actores que as interpretam. Só assim se explica que, no ano passado, a Disney, a Warner e a Netflix tenham ameaçado sair de Atlanta, quando este Estado quis passar uma lei que proibia o aborto a partir do momento em que bate o coração dos bebés, o que acontece, normalmente, entre as 6 e as 8 semanas de gestação. A razão? Alegadamente, os seus funcionários recusar-se-iam a trabalhar num estado com leis que protegem a vida de seres humanos inocentes. Podemos ficar tranquilos quando pessoas assim são responsáveis pelo imaginário dos nossos filhos?

Não foi caso isolado, uma vez que a HBO apresentou recentemente o filme “Unpregnant”. Trata-se de um filme de suposta comédia em que uma adolescente de 17 anos descobre que está grávida e, à revelia do pai da criança e com o apoio da melhor amiga, decide fazer uma grande jornada pelos EUA para conseguir chegar a uma clínica onde possa abortar. Além da zombaria habitual com o catolicismo, que é sempre retratado nestes filmes como uma crença de retrógrados opressivos, a realidade dramática do aborto é retratada como se de uma ao shopping se tratasse.

Também a Netflix merece algumas considerações. De certeza que se lembra de toda a polémica gerada pelo especial de Natal da série “Porta dos Fundos”, que motivou boicotes e petições por todo o mundo. Milhões de pessoas manifestaram o seu desconforto com uma série que ridiculariza a realidade mais importante das suas vidas, a Fé em Cristo.

Se o leitor pensa que esta indignação teve algum efeito, está enganado. Em Setembro, a Netflix deu a conhecer o seu novo filme “Cuties”, que é um filme sobre uma menina de 11 anos que se “liberta” dos seus pais “restritivos e opressores” para se juntar a um grupo de meninas que dançam twerk, um tipo de dança sexualmente sugestivo. Se fosse uma atriz maior de idade a fazer este papel seria mau, mas o facto de ser mesmo uma criança de 11 anos a fazê-lo ultrapassa todos os limites da decência. Onde andam os pais destas crianças? Como podem permitir tamanho atropelo à inocência das suas filhas?

Não tenhamos dúvidas. A revolução sexual de 68 continua em marcha e parece muito plausível que a pedofilia seja uma das próximas bandeiras a defender pelos seus partidários. Este filme, premiado e aclamado pelos críticos, revela isso mesmo com muita clareza.

Para terminar, vamos à indústria musical.

Do ponto de vista musical, a maior parte das músicas da moda são medíocres. Mas muito mais graves são as letras. Talvez não tenha essa noção, mas parte significativa das músicas que as crianças (e nós) cantamos alegremente no carro ou em festas têm letras, no mínimo, de gosto duvidoso.

Uma das músicas do momento é uma tal de “WAP” da artista Cardi B. Está no top mundial e é das mais ouvidas nos EUA e também em Portugal, no momento em que este artigo foi escrito. Nem o videoclip (com 270 milhões de visualizações no YouTube), nem a letra são descritíveis num espaço que se queria civilizado. No entanto há milhões e milhões de pessoas pelo mundo inteiro que alegremente ouvem, dançam e celebram este tipo de canções. Também as crianças e jovens cuja pureza é atacada cada vez mais cedo, cada vez com mais intensidade.

Nosso Senhor utilizava frequentemente parábolas, mas no que toca a pureza e à inocência das crianças foi taxativo: «(…) se alguém escandalizar um destes pequeninos que crêem em mim, seria preferível que lhe suspendessem do pescoço a mó de um moinho e o lançassem nas profundezas do mar.» (Mt 18, 6)

Muitos mais exemplos podiam ser dados e voltaremos, certamente, a aprofundar o assunto neste espaço. No entanto, gostaria de despertar a vossa atenção para esta realidade que, não sendo óbvia, está a cimentar no nosso subconsciente esta cultura contemporânea que olha para o Homem como descartável e despido de dignidade. Esta cultura que vê na sexualidade humana, não uma expressão íntima de união entre marido e mulher, mas como uma forma de diversão, dissociada de qualquer compromisso de fidelidade.

Esta degradação moral está a ser incutida nas escolas, nas publicidades, nas séries e nas músicas que ouvimos a todo o momento. Não são casos isolados ou pontuais. São constantes, persistentes e institucionalizados. Saibamos fazer o nosso julgamento prudencial sobre se valerá a pena estar a alimentar esta indústria com as nossas subscrições.

Bernardo Brochado

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