FAMÍLIA

O testemunho não é opção!

Comecemos pelo básico: um sacramento é um sinal visível de uma realidade invisível, em que o sinal constitui a matéria e a realidade representa o mistério da presença de Deus na vida da Igreja. Da mesma maneira que, a título de exemplo, a água no baptismo é o sinal visível e o Espírito Santo a realidade invisível, também o matrimónio entre dois baptizados, sendo um sacramento, obedece a esta mesma ordem. No casamento, marido e mulher são o sinal visível da realidade invisível que é a aliança de Cristo com a Igreja (cf. CIC 1617), misteriosamente presente no amor fiel, total, exclusivo e fecundo dos esposos (cf. CIC 1644-1654). São Paulo, no capítulo quinto da carta aos Efésios, retoma as palavras do livro do Génesis – as quais Jesus já tinha proferido para defender a indissolubilidade do matrimónio (Mt 19, 5) – e afirma com autoridade que «“Por isso o homem deixará o pai e a mãe para se unir à sua mulher e serão os dois uma só carne”. É grande este mistério, digo-o em relação a Cristo e à Igreja”» (Ef 5, 31-32). Surge então a questão: será que o mundo tem noção do quão grande é o mistério de que é sinal a união entre marido e mulher no matrimónio? A resposta, infelizmente e quando vemos o estado do matrimónio sobretudo no mundo ocidental, é simples: na grande maioria, não.

Diante disto podemos desanimar, ou até ficar indiferentes, continuando a viver a nossa fé na tão afamada “esfera privada”. Mas ao abrir as páginas do Evangelho corremos o risco de ler o mandato apostólico de Nosso Senhor: “Ide por todo o mundo, e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc, 16, 15). Assim, a Igreja sempre defendeu que todos os baptizados, pela graça recebida nos sacramentos da vida cristã, têm responsabilidade no anúncio da Boa Nova (cf. CIC 1533). No âmbito deste texto, também os casais têm a sua “quota-parte” na responsabilidade pelo anúncio do Evangelho, começando pelo anúncio aos próprios filhos (cf. CIC 2225).

Devemos agora trazer para a nossa reflexão a realidade da ‘família’ que, no contexto cristão assume um carácter especial, porque é imagem da grande família de Deus que é a Igreja, o que faz com que cada família católica seja ela própria uma “Ecclesia domestica – Igreja doméstica” (Cf. CIC 1656). Numa referência à realidade das famílias convertidas no início do Cristianismo, o Catecismo afirma que “estas famílias, que passaram a ser crentes, eram pequenas ilhas de vida cristã no meio dum mundo descrente.” (cf. CIC 1655). Como se assemelham às famílias católicas do nosso tempo, aquelas que de perto presenciaram os Mistérios inefáveis da Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição do Salvador! Nos primórdios do Cristianismo como agora, quantas famílias não arriscam tudo, chegando ao ponto de dar a própria vida para anunciar que Jesus Cristo vive!

Mas, e hoje? Num mundo que se esqueceu de Deus, numa sociedade que pretende poder legislar e definir o que é a família, qual o nosso papel? A pergunta que dá o título ao texto pode ser interpretada no sentido de que não há necessidade nem dever de dar testemunho perante a paganização da realidade que nos rodeia. No limite, mais vale refugiar-se dos inimigos e dos que pensam de forma diferente. Mas, então, quem estaria no meio dos homens para falar de Deus? No caso dos esposos, quem seria o sinal de contradição de que é possível a fidelidade total? E, mesmo quando ela falha, de que é possível o arrependimento e a reconciliação? Onde estaria o sinal da alegria daqueles que se sabem cooperadores de Deus no dom de uma vida nova? Onde estaria o testemunho dos esposos que, sendo um para o outro, são os dois de Deus? E ainda, onde estaria o amor dos filhos por se saberem amados pelos seus pais, a sua alegria por saberem que os pais juraram perante Deus e a Sua Igreja permanecerem fiéis na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da sua vida? Ressoam então as palavras de São Paulo: “É grande este mistério, digo-o em relação a Cristo e à Igreja.”

Não. O testemunho da família católica não é opção. É vocação – é chamamento de Deus para que, através do amor dos esposos, Nosso Senhor possa derramar a Sua graça nas vidas daqueles que se rendem perante a Sua majestade. Também hoje as famílias católicas devem ser ‘pequenas ilhas de vida cristã no meio dum mundo descrente’, devem ser o porto seguro para quantos se sintam desamparados. E, para terminar, que reconfortante é saber que tudo é graça. Tudo é graça.

Vasco e Mafalda Almeida Ribeiro

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