FAMÍLIA

A família enquanto local de espera do Senhor

“Maraná Thá!”

É este o adágio de todos os cristãos na altura do Advento e que significa, ‘Vem, Senhor’. Neste tempo que dá início ao ano litúrgico, somos convidados a colocar a nossa existência no fim de todas as coisas, desejando ardentemente que Jesus, da mesma maneira que há dois mil anos veio até nós pelo seio virginal de Nossa Senhora, regresse definitivamente para fazer novas todas as coisas (Ap 21, 5).

É sabido que a nossa Fé é feita, não de contradições, mas de paradoxos. É um enorme paradoxo o facto de um Homem que, sendo de condição divina, é Deus Filho, e que apesar disso se submete ao sofrimento da cruz até à morte, mas que precisamente por isso é exaltado por Deus Pai (Fl 2, 5-11). Da mesma forma, é um grande paradoxo que Deus, ‘Aquele que É’ (Jo 8, 58), se tenha feito Homem, nascendo indefeso no seio de uma família que, à primeira vista, não se destacava das outras. Como referimos no primeiro destes nossos textos sobre a família, a Encarnação é um magnum mysterium precisamente porque não a podemos compreender socorrendo-nos apenas da nossa razão (i.e. que o infinito se torne finito).

Assim, neste período de ardente espera até ao Natal, experimentamos sentimentos de assombro e maravilhamento enquanto aguardamos a segunda vinda de Cristo Rei do Universo, tal como S. João no-lO descreveu, montado num cavalo branco com olhos “como uma chama de fogo” e que “tem sobre a cabeça muitos diademas”, de cuja boca “sai uma espada afiada, para ferir com ela as nações”, o Rei dos reis e Senhor dos senhores (Ap 19, 11-16). Ao mesmo tempo, e paradoxalmente, a nossa Mãe Igreja propõe-nos a contemplação de um Menino recém-nascido, ternamente acarinhado pelos seus pais, porventura com alguns pastores também em cena, os animais do estábulo a acompanhar e os anjos do Céu a adorar. Na vida familiar, este segundo aspecto do advento é aquele com o qual nos relacionamos com maior naturalidade.

Atribui-se a São Francisco de Assis o ter, no século XIII e certamente por inspiração divina, dado início à tradição do Presépio. Assim, desde há 800 anos que nas quatro semanas que formam o advento e depois até ao dia de reis, as casas de tantas gerações de católicos têm sido visitadas por este Menino que “reinará sobre a casa de Jacob eternamente e o Seu reino não terá fim” (Lc 1, 33). Tratando-se geralmente de figuras pequenas, é natural que os presépios façam as delícias das crianças, e gostam de ser elas a colocar cada figura no seu devido lugar. Há quem encarregue o mais novo da família para colocar na noite de dia 24 o próprio Menino Jesus na sua manjedoura. São gestos que convidam a toda a família a unir-se na contemplação do mistério que supera o nosso entendimento: um recém-nascido que é verdadeiramente Deus. O presépio é uma verdadeira escola de contemplação para toda a família, e por isso também uma escola de oração – quantas famílias não se juntam em torno do presépio para aí rezar ao acordar, a meio do dia ou antes de dormir? O presépio forma também cada família na verdadeira humildade cristã, que se revela numa total submissão de cada um a Deus Pai. Se Nosso Senhor se fez assim pequeno e humilde, o único caminho para cada um de nós é essa mesma humildade. É por isso que no Advento somos chamados a aperfeiçoar-nos na virtude e a sermos bons, uns para os outros. O cristão não se prepara para o Natal com base num sentimento vago de altruísmo e de bondade. O cristão prepara-se para o Natal porque Jesus se fez Homem para salvar a cada um de nós, e isso faz com que nós nos queiramos revestir de Cristo para O levar ao próximo.

Num mundo que se esqueceu do verdadeiro significado do Natal, substituindo-o por slogans de marketing vazios de sentido que visam sobretudo um incremento do consumo naquela época, cabe às famílias viver esse tempo como luzes num mundo de trevas, acendendo com amor as velas do Advento e rezando intensamente por tantos que ainda não se deixaram tocar por Nosso Senhor. Infelizmente é comum ouvir-se na rua algo como “isto do Natal não me diz nada”. As pessoas chegaram ao ponto de se esquecer o que significa o nascimento de Cristo para a história da humanidade, Aquele que veio socorrer e dar a vida pelos mais fracos, recordando que cada um de nós é criado à imagem e semelhança de Deus Pai. Parecem dar tudo isto por garantido, quando tantas outras civilizações foram e são capazes de negar a dignidade a seres humanos com base em características tão superficiais. Foi Jesus que, ao nascer na humildade e na pobreza do lar de Nazaré, veio deitar abaixo o muro da inimizade que separava os homens (Ef 2, 14) e dar a possibilidade a cada um de nós de nos tornarmos, à Sua semelhança, Filhos de Deus.

Se não forem as famílias a trazer esta consciência de volta ao mundo, quem o fará? Vivamos por isso este período de Advento e de Natal num clima de sincera caridade, no seio das nossas famílias mas também atentos aos que mais precisam de nós, participando por exemplo em iniciativas de cabazes. Sejamos capazes de tomar sobre nós o fardo dos outros, com os olhos postos no Menino Jesus, reconhecendo-nos totalmente dependentes de Deus como Ele se fez dependente de Nossa Senhora e São José. E em silêncio, juntemos a nossa família para O contemplar: O Magnum Mysterym.

 Mafalda e Vasco Almeida Ribeiro

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