Usar coisas, amar pessoas (não o contrário)

Uso como título para este artigo o nome de um antigo podcast sobre os perigos da pornografia. Uso-o porque esta pequena frase capta muito bem uma consequência que é transversal aos pecados contra a virtude da castidade: a de reduzir as pessoas a meros objectos que se podem usar e deitar fora.

Esta reificação, característica do hedonismo que tanta influência tem na nossa cultura, tem um dos seus expoentes máximos na pornografia, que atingiu hoje um volume e uma facilidade de acesso como nunca antes na história da humanidade. Há não muito tempo, a pornografia era acessível apenas a adultos através da compra de revistas ou de cassetes. Por essa razão, a acessibilidade era logo limitada por – pelo menos – três razões: (i) havia um preço que tinha de ser pago, (ii) havia uma limitação de idade e havia ainda a (iii) limitação que se deve à vergonha que uma pessoa tem de adquirir ou possuir estes produtos. Hoje, por outro lado, qualquer criança tem um smartphone e, com ele, acesso a uma quantidade ilimitada de pornografia de forma gratuita e anónima. Pode mesmo dizer-se que hoje, em alguns minutos, um jovem tem acesso a mais conteúdo imoral do que os seus avós teriam ao longo de toda a sua vida.

Até que ponto é razoável pôr esta bomba-relógio nas mãos de uma criança de 13 ou 14 anos? É que, além do acesso à pornografia e a outros vícios como séries e jogos, um smartphone representa riscos sérios para a saúde mental e espiritual de uma criança. Hoje sabemos, por exemplo, que os smartphones podem afectar muito negativamente a performance escolar e a capacidade de interação social, tanto de crianças como de adultos.

Além disso, temos de estar conscientes para o risco acrescido de um uso desordenado das redes sociais, que são um meio de pôr crianças em contacto com pessoas mal-intencionadas, como burlões ou pedófilos, que hoje têm técnicas muito sofisticadas de seduzir as crianças, chantageando-as a enviarem fotografias e vídeos íntimos sob a ameaça de represálias. Ainda muito recentemente se soube de mais um destes casos em Portugal. Aliás, a IWF indica claramente que a tendência tem sido de um crescimento vertiginoso destas práticas, algo que a pandemia só veio piorar, alertam as autoridades. Podemos estar seguros de que não é só nos filmes que isto acontece.

A este propósito, um famoso jornalista do The New York Times, Nicholas Kristof, publicou há pouco tempo um artigo[1] sobre a indústria da pornografia que rapidamente se tornou polémico e serviu para reacender o debate em torno da legalidade da pornografia. Este artigo é o resultado de uma investigação que veio revelar um lado ainda mais sombrio deste submundo: é que, além dos já nefastos vídeos e fotografias produzidos por empresas que se dedicam à exploração de seres humanos, despindo-os – literalmente – da sua dignidade, há uma série de conteúdos que envolvem pornografia infantil e violações de crianças, bem como outras barbaridades como mulheres a serem asfixiadas, só para dar alguns exemplos de conteúdos  que milhões de pessoas consomem diariamente em sites gratuitos na internet. São centenas de milhares de vídeos disponíveis a qualquer pessoa, à distância de um click, que são publicados, muitas vezes, sem a autorização das pessoas que neles participam.

Gostaria de chamar a atenção do leitor para duas revelações preocupantes deste artigo. Em primeiro lugar, revela como pequenos gestos imprudentes podem destruir a vida de uma pessoa e, em segundo lugar, que o consumo e produção de pornografia é uma “pandemia” mais preocupante que a Covid.

Quanto à primeira revelação que queria enfatizar, o artigo dá vários exemplos reais que ilustram como é que jovens meninas caem em desgraça por terem vídeos seus em sites pornográficos contra a sua vontade. São histórias desoladoras e diferentes, no entanto, muitas têm em comum que, a dada altura, devido à humilhação de que foram vítimas, estas jovens mudaram de escola, acabando por deixar de estudar, enfrentaram pesadas depressões, caíram nas drogas pesadas e tentaram o suicídio. Felizmente, não tiveram sucesso na tentativa de suicídio e puderam contar a sua história, fica por contar a história de tantas outras…

Estes casos têm geralmente em comum, também, que tudo começou com um pedido de fotografias ou vídeos íntimos, não por desconhecidos, mas pelos seus próprios namorados. De um modo ou de outro os vídeos e as fotografias acabaram por se espalhar pelas escolas onde andavam e, finalmente, foram parar a sites de pornografia algum tempo depois. Uma vez aí chegados, de nada vale contactar o site para pedir para apagar as fotografias e os vídeos, uma vez que, mesmo nos casos em que são apagados, passado algum tempo, outro utilizador acaba por fazer novamente upload dos ficheiros as vezes que forem necessárias. Mesmo que não tivesse ido parar a estes sites, uma vez no whatsapp ou em qualquer outro fórum digital, muito dificilmente se consegue controlar o que poderá acontecer a esse ficheiro. Uma vez na internet, para sempre na internet. É assustador.

Repare-se que não estamos a falar de pornografia feita por actores adultos – o que já seria intrinsecamente mau, já que a moralidade não depende do nosso consentimento – estamos a falar de crianças com 13, 14, 15 anos. Uma vez mais, tudo começou com um smartphone. Peço desculpa pela insistência, mas a mera ideia de que estas crianças podiam ser os nossos filhos, sobrinhos, irmãos… devia causar-nos, no mínimo, revolta e repugnância.

Quanto à segunda revelação, penso que os dados falam por si. O artigo dá uma pequena noção da dimensão do problema. Um dos sites onde estes vídeos foram parar, sozinho, tem 3,5 mil milhões de visitantes todos os meses. É mais que a Netflix ou a Amazon. Todos os dias é feito o upload de cerca de 4.000 horas de vídeos neste site, que nem é o mais visitado dos sites de pornografia. São mais de 1 milhão de horas por ano de novos vídeos em que seres humanos são tratados como se de peças de talho se tratassem e sabe Deus quantas dessas horas dizem respeito a crianças ou a violações. No top 10 de sites mais visitados da internet há 3 destes sites. Este problema vai além dos sites de pornografia: o Facebook, em 3 meses deste ano, retirou mais de 12 milhões de imagens relacionadas com exploração de menores; já o Twitter, teve de apagar, em 6 meses, mais de 200 mil contas pelo mesmo motivo. É claro que, nem os sites onde estes vídeos foram parar estão em alguma parte inacessível da internet, nem são sites que sejam apenas consultados por um nicho de gente desequilibrada. Vivemos numa cultura doente que relativiza a gravidade da pornografia. É claro, também, que o problema vai além dos sites de pornografia. São conhecidos casos em Portugal de vídeos de menores que andaram a circular pelos telemóveis dos colegas de escola através do Whatsapp ou chat do Facebook.

Não será hora de fazer alguma coisa? Porque é que o combate a este flagelo não é uma das prioridades do Governo? Porque é que todos os anos estes casos continuam a aumentar? Será que os pais estão a fazer a sua parte na monitorização dos conteúdos que circulam pelos smartphones dos seus filhos? Ou consideram que os filhos são imunes a esta praga? Podemos continuar confortavelmente a assobiar para o lado quando há uma indústria que faz milhões de euros à custa de vídeos de crianças que se tentaram suicidar, de mulheres que foram violadas, ou mesmo de gente que acabou por fazer da pornografia a sua profissão (tendo em conta que, muito provavelmente, isso aconteceu porque foram vítimas de tráfico ou não tiveram oportunidade para fazer outra coisa)?

A pornografia é destrutiva para a alma e, fruto da evolução da ciência, conhecem-se hoje cada vez mais estudos que revelam os enormes perigos que esta tem para a saúde das pessoas que a consomem e produzem. Sabe-se hoje, por exemplo, que o consumo de pornografia tem efeitos semelhantes aos de drogas como a heroína no nosso cérebro, alterando o seu funcionamento e provocando dependência. Além disso, o consumo de pornografia afecta a forma como olhamos e como nos relacionamos com as outras pessoas. Isto para não falar dos casamentos que são destruídos e dos problemas relacionados com impotência, no caso dos homens.

Com este texto não seria possível esgotar o tema da pornografia, por isso, como nota final, damos nota que, felizmente, existe hoje uma imensidão de recursos que podem ser usados de forma gratuita para quem queria aprender mais sobre os riscos físicos, sociais e espirituais que a pornografia e a masturbação representam. Deixamos alguns exemplos abaixo:

Fight the New Drug

Your Brain on Porn (em português)

Chastity Project

Curso sobre a pornografia do Padre Paulo Ricardo (em português)

Strive (Em espanhol ou inglês, programa específico para quem queira libertar-se do vício da pornografia).


[1] Este artigo serve de base ao texto que agora publicámos pelos contributos importantes que dá para desmascarar a imoralidade da indústria da pornografia. No entanto, é muito importante clarificar que, ao contrário do que Kristof afirma, o problema da pornografia não se esgota no envolvimento de menores ou quando se trata de material cuja divulgação não foi consentida. Qualquer forma de pornografia é degradante para os que a praticam e consomem. Penso que este nosso texto reflecte essa visão. A este propósito aconselhamos, também, a leitura deste artigo do National Catholic Register.