Porquê Ler C. S. Lewis

Miguel Sepúlveda

Quando no início deste ano começou a pandemia aproveitei para me dedicar aos livros de um autor muito conhecido, mas do qual tinha lido pouco. O autor é Clive Staples Lewis, o famoso escritor das “Crónicas de Nárnia” e, a par com gigantes como G. K. Chesterton ou George McDonald, um dos principais apologistas cristãos do Séc. XX. Anos antes tinha lido as suas “Screwtape Letters” e o “Mere Christianity”, ambos livros que me deixaram uma forte impressão e um gosto enorme pela sua escrita. Mas o que aconteceu este ano foi diferente. Depois de ler um dos seus livros, deparado com a infinita biblioteca de opções que podiam ser o próximo livro a ler, só queria ler mais deste autor. Rapidamente dois tornaram-se três, até que em pouco tempo tinha lido a maioria do que se pode chamar o principal de Lewis. A pouco e pouco apercebi-me de que o objecto do meu fascínio, que me provocava e desafiava a minha vida não era um objecto, mas um sujeito! Mais do que os seus livros, quem me falava diretamente era Lewis.

Walter Hooper[1], seu amigo e secretário, tem uma experiência semelhante: descobriu o autor pela primeira vez em 1954 enquanto se preparava para o seu tempo de recruta no exército, ao ler a introdução de Lewis ao livro “Letters to Young Churches”. Assim descrevia Hooper a experiência aos seus amigos: “Foi a introdução (de Lewis) que absolutamente mudou a minha vida… nunca tinha ouvido uma voz de Fé assim.” E continuava dizendo: “Este homem acredita mesmo!”, ao que lhe respondiam: “Walter… todos os crentes acreditam..!”. Mas Hooper contestava: “Não, isto é diferente. Lewis acredita com a confiança que encontrariam em homens como São Pedro ou São Paulo. Ele conhece-a. Conhece-a de uma forma que nunca soube ninguém conhecer.”

Qual é a razão que faz com que todos os leitores de Lewis passem por esta experiência?

A questão é que o tipo de conhecimento de que Walter Hooper fala não é um conhecimento teórico, intelectual, desligado da realidade, mas um conhecimento como o de Gênesis 4, onde se lê “Adão conheceu Eva, sua mulher[2]”. É um conhecer por dentro, um conhecer vivido. É completamente diferente ler um livro teórico sobre agricultura ou aprender agricultura falando com um agricultor. O conhecimento que nos chega deste segundo modo, é vinculado pela experiência vivida das coisas que um livro apenas nos poderia descrever. Ora, quando Lewis nos escreve sobre a infinita misericórdia e justiça de Aslan, sobre a conversão de Eustace, ou sobre as tentações de Lucy, está a falar-nos de aspectos da vida cristã não como um espectador de fora, mas como o agricultor que todos os dias cultiva o seu campo. Cristo não nos veio oferecer uma teoria, mas a Si próprio. Cristo não disse “Eu digo a Verdade e aponto o Caminho”, mas “Eu sou a Verdade e o Caminho”. Lewis compreende isto, e é essa vivência de santidade que brilha através dos seus livros e que nos faz a nós, leitores, admirá-lo.

Quando ouvi a experiência de leitura de Hooper senti-me muito identificado, e apercebi-me de que era nesta forma de conhecer que estava o centro da questão. Na realidade, mesmo esta admiração por Lewis – inicialmente marcada pelo seu génio literário, pela forma poética, simples, mas profunda com que explica questões complexas como a Lei Natural, a ruína do Relativismo, o problema da dor, ou mesmo a existência de Deus! – foi se transformando a pouco e pouco numa admiração pelo modo como tanto de Lewis era, na realidade, Cristo em ação. Este abrir de olhos traduz-se tanto numa vontade de ler mais, como numa exigência. No fundo, Lewis não fez mais do que nos é pedido a todos: que desapareçamos em Cristo para um dia podermos dizer como São Paulo “Não sou mais eu que vivo, é Cristo que vive em mim.”

Quando em 1982 Hooper teve uma conversa privada com o Papa São João Paulo II, ficou surpreendido pelo Papa ser um admirador de longa data da literatura de Lewis. Na realidade, antes de ser Papa tinha o hábito de ler com os seus alunos os livros de C. S. Lewis, à medida que iam saindo. Hooper, convertido ao Catolicismo, não podia ter ficado mais feliz ao saber isto. Pressentido esta alegria, o Papa – que até então tinha passado o tempo todo a fazer-lhe perguntas sobre como era Lewis o homem – sentiu que tinha de dizer algo acerca da sua própria opinião. Depois de pensar um pouco, em silêncio, disse estas breves palavras: “C. S. Lewis knew his Apostolate… and he did it!”.

Suspeito que será muito raro encontrar entre nós génios apologistas como foi Lewis, mas a todos é feito este desafio: que no final da nossa vida se possa dizer o mesmo que se disse dele: “Ele sabia o seu apostolado, e cumpriu-o”. O próprio Lewis tinha consciência desta “chamada universal à santidade”, e é assim que a resume ao acabar o seu livro “The Great Divorce”: “No fim, há apenas dois tipos de pessoas: aquelas que dizem a Deus “seja feita a Sua vontade” e aquelas a quem Deus diz “seja feita a tua vontade”.

[1] Walter Hooper foi secretário de C. S. Lewis e o principal responsável pela edição e divulgação das suas obras depois da sua morte. Inicialmente Anglicano, Hooper converteu-se ao Catolicismo em 1988, passando a visitar o Oratório de Oxford diariamente. As suas “C.S. Lewis: A Biography” (1974), “C.S. Lewis: A Companion and Guide” (1996) e “C.S. Lewis: A Complete Guide to His Life and Works” (1998) estão entre as principais biografias de Lewis. No passado 7 de Dezembro de 2020 Walter Hooper morreu com 89 anos em Oxford, Inglaterra.

[2] Gen 4, 1