A Quaresma e o Namoro

Mafalda e Vasco

O namoro tal como o conhecemos é sem dúvida uma realidade recente na vida moderna. Talvez não nos apercebamos hoje em dia, mas numa boa parte do século passado, não seria muito bem visto que um casal de namorados passeasse na rua sem um terceiro que os acompanhasse (conhecemos relatos dos nossos avós, em que os irmãos mais novos eram obrigados a “fazer de vela” dos mais velhos).

Nos nossos tempos, assistimos a uma total liberalização no que diz respeito à aceitação do namoro pela sociedade – por vezes tão total que, em não poucos casos, se torna difícil distinguir a vida do namoro com a vida de casado. De facto, no nosso mundo descristianizado, esta liberalização fez-se acompanhar por uma relativização dos diferentes estados de vida e daquilo que lhes era próprio. A título de exemplo, nos casamentos sugere-se o divórcio e a sua suposta “liberdade” como solução fácil, enquanto para quem escolhe a vida consagrada existe uma forte vontade de os ver casados, também em nome dessa “liberdade”. Desta forma, também o namoro se dissolve em outros estados de vida, ao ponto de vermos casais de namorados que vivem como se ainda fossem solteiros e outros, como já foi dito, que vivem como se casados já estivessem.

Vivemos agora este tempo central do ano litúrgico que é a Quaresma, a qual, por estranho que possa parecer, nos ensina muito acerca do namoro. De facto, tal como na Quaresma, no namoro somos chamados a fazer jejum e a renunciar aos prazeres, a lutar contra as paixões, bem como a aprender a amar como Deus ama e a ter esperança num tempo de maior felicidade (para além de que, tal como na Quaresma, o namoro também tem um princípio e um fim). Se a Quaresma é o treino para se viver o tempo Pascal com maior fervor, também o namoro é uma preparação para viver o sacramento do matrimónio em toda a sua plenitude. Por isso mesmo, adiantar etapas torna-se danoso para a própria relação entre o casal de namorados, sobretudo quando se vive a intimidade física, retirando-a do contexto para o qual acreditamos que foi criada. A este propósito e embora referindo-se ao noivado, diz o Catecismo no ponto 2350:

«Os noivos são chamados a viver a castidade na continência. Eles farão, neste tempo de prova, a descoberta do respeito mútuo, a aprendizagem da fidelidade e da esperança de se receberem um ao outro de Deus. Reservarão para o tempo do matrimónio as manifestações de ternura específicas do amor conjugal. Ajudar-se-ão mutuamente a crescer na castidade.»

De facto, o amor conjugal, no qual homem e mulher se tornam uma só carne, é para nós católicos chamado a ser imagem do amor entre Cristo e a Igreja, uma amor que simultaneamente é livre, total, fiel, exclusivo e fecundo. Como ensinou São João Paulo II, o acto conjugal reveste-se de um significado esponsal, de doação total entre marido e mulher. Por isso, qualquer acto conjugal que ocorra numa relação que não tenha, simultaneamente, as características acima referidas, torna esse acto numa mentira porque não existe essa doação total – da mesma forma que mentimos se damos um abraço a alguém enquanto no coração alimentos a repugnância por essa pessoa.

Efectivamente, apenas no matrimónio se encontram presentes as características necessárias para se viver um acto conjugal vivido rectamente. No rito do matrimónio, tanto no diálogo do sacerdote com os esposos, como na fórmula do consentimento, está previsto que aquela união aconteça livremente, com vista à fecundidade e com a promessa da fidelidade e da exclusividade na totalidade das situações de vida. A Igreja, Mãe e Mestra, perita em humanidade, convida-nos por isso a ser corajosos e a abdicar destes actos durante o namoro e noivado. Di-lo porque nos quer bem e porque quer realçar a santidade matrimonial.

Se Nosso Senhor voltasse a caminhar entre nós, ao abordar este tema numa das suas catequeses públicas, não seria difícil imaginar muitos a afastarem-se por considerarem este convite ao namoro casto algo insuportável. Mas nós não sabemos a quem ir senão a Cristo, pois só Ele tem palavras de vida eterna.

Graças a Deus não são poucos os testemunhos de quem escolheu esta via estreita e é sempre bom assistir à alegria de quem soube esperar e aproveitar o namoro para realmente conhecer e dar-se a conhecer à outra pessoa. De modo geral, desses casais surgem famílias felizes, ansiosas por partilhar com o mundo a alegria de Cristo Ressuscitado.

O namoro é, tipicamente, um acontecimento da vida dos jovens. Assim, fazemos nossas as palavras de Bento XVI: “Jovens: não tenhais medo de Cristo! Ele não tira nada, ele dá tudo”.