Nomadland e Fátima

Realizou-se, na madrugada de 25 para 26 de Abril – dois meses mais tarde do que é habitual – a cerimónia dos Óscares, a mais importante do cinema mundial, que tantas vezes é criticada pelos cinéfilos mais cultos, por dar primazia aos filmes produzidos por Hollywood, desprezando a indústria cinematográfica de outros países que, mesmo sendo mais pobre, terá maior valor artístico. Certo é que, independentemente do valor artístico dos filmes nomeados para os Óscares, estes são tipicamente os mais populares do planeta. Este ano com uma diferença – tendo em conta o impacto da pandemia – visto que a Academia decidiu deixar cair excepcionalmente a regra de elegibilidade dos filmes, que tinham de ser exibidos numa sala de cinema em Los Angeles, pelo menos, sete dias consecutivos. Abriu-se, assim, a porta filmes disponíveis no formato de streaming.

Uma vez mais, fiando-nos nos media, parece que efectivamente não era o valor artístico que estava em jogo, mas uma “check list” politicamente correcta: a cor, o sexo, a orientação sexual, a nacionalidade… Parece que tudo interessava menos os filmes em si. Mas isto, infelizmente, já não é novo.

O filme com mais nomeações para os Óscares deste ano era o Mank do grande realizador David Fincher. Produzido pela Netflix, conta a história da criação do famoso Citizen Kane, frequentemente considerado o melhor filme de sempre. No entanto, desde cedo se perspectivou que o principal favorito este ano fosse o Nomadland da realizadora chinesa Chloé Zhao, filme que já tinha arrecadado uma série de prémios: desde os Globos de Ouro, aos BAFTA, ao AFI, entre centenas doutros.

Inspirado num livro de Jessica Bruder, Nomadland estreou mundialmente em Setembro de 2020, no Festival de Cinema de Veneza (outro festival que venceu). O filme conta a história de Fern, uma mulher de meia idade interpretada por Frances McDormand que, tendo ficado recentemente viúva, perdeu o seu emprego fabril na sequência da Grande Recessão, em 2011. Desempregada e só, decide vender os seus bens e comprar uma autocaravana, onde passa a viver enquanto se desloca pelos EUA à procura de emprego, integrando-se numa sub-cultura nómada composta por gente que procura sobreviver em condições precárias e sempre na iminência da ruína económica. Esta sub-cultura surgiu com a crise de 2008 e prolonga-se, aparentemente até aos dias de hoje.

O filme tem sido aclamado porque explora questões como a marginalização silenciosa de muitos seres humanos esquecidos, mas também questões como a solidão, a morte, a auto-determinação, a doença e até a eutanásia, além de funcionar como uma crítica ao capitalismo norte-americano. Alertamos, também, que tendo algumas cenas de nudez, ainda que em circunstâncias não sexuais, não é um filme familiar ou de visualização recomendável. Algo que, infelizmente, não deixa de ser comum nos dias de hoje.

O cinema moderno gosta de explorar artisticamente as situações-limite da existência humana, muitas vezes sob a duvidosa justificação de que é nas situações limite que os homens se revelam plenamente. Não sei se é assim. Em situação de desespero, como a pobreza extrema ou doença grave, a liberdade encontra-se fortemente condicionada tanto materialmente como psicologicamente, pelo que não será estranho que nessas situações os homens se sintam especialmente tentados a fazer aquilo que sabem ser errado e que, por isso, não o fariam em circunstâncias normais. Precisamente por ser muito mais difícil nestas circunstâncias viver uma vida moral é que é atribuído grande mérito àqueles que o conseguem fazer, dos quais tipicamente os santos e, em particular, os mártires são extraordinário exemplo.

Filmes como Nomadland fazem bem em despertar a nossa consciência para pobreza esquecida e para lançar o debate sobre como é que podemos, como comunidade, encontrar soluções políticas e económicas que devolvam a dignidade a estes seres humanos, nossos irmãos. Fica, no entanto, a ressoar na nossa cabeça aquele ensinamento de Jesus “Pobres, sempre os tereis” (cf. Jo 12, 8) que, não desvalorizando a urgência de combater a pobreza material, nos obriga a ir mais fundo nos mistérios da existência humana e procurar um “porquê” para uma realidade que nos parece tão cruel.

São raros os filmes que conseguem chegar a este nível de profundidade e, mais raro ainda, que sejam vencedores de Óscares, mas é justo dizer que existem: A Man for all Seasons; Lord of the Rings; A Hidden Life, The Passion of the Christ, La Vitta è Bella… são algumas excepções que confirmam a regra.

A propósito, em 2020 surgiu um filme que – não estando ainda disponível em Portugal – passou praticamente despercebido, muito embora a sua aparente riqueza espiritual e artística. Talvez porque não olha apenas para o sentido artístico da miséria, mas nos interpela directamente a nós, espectadores. Em vez de nos fazer reflectir intelectualmente enquanto comemos pipocas, obriga-nos a largar as pipocas e a mudar radicalmente de vida. Trata-se da história real de 3 crianças que, tendo certamente piores condições materiais que Fern de Nomadland seriam, no entanto, tremendamente felizes. Trata-se de Fátima, de Marco Pontecorvo, uma produção internacional, filmada em Portugal e que aparentemente é o melhor filme sobre Fátima alguma vez realizado.

Se Nomadland foi o grande vencedor dos Óscares sendo um filme que nos oferece mais interrogações do que certezas sobre as margens da existência onde parece já não haver redenção, Fátima pode bem ser uma resposta, ao recordar-nos do valor redentor do sofrimento humano, tantas vezes o lugar espiritual onde surge a Fé que ilumina, renova e salva.