Ideologias que matam

Foi no dia 14 de Julho de 1789 que o povo de Paris assaltou a Bastilha, uma fortaleza que simbolizava o poder absoluto por ser o cárcere dos prisioneiros políticos. Embora, entre os 5 ou 6 prisioneiros não houvesse nenhum condenado por delito de opinião, este acto simbólico deu início a uma das mais cruéis perseguições que a Igreja Católica sofreu, especialmente – mas não só – no contexto do sangrento Terreur que se seguiu à Revolução Francesa. Inspirados pelas ideias dos “filósofos ilustrados” – que ainda hoje fazem furor entre algumas elites intelectuais – os revolucionários iniciaram um processo que aboliu o Catolicismo em França para o (tentar) substituir pelo culto da “deusa Razão”. Todos os bens da Igreja foram confiscados, as ordens religiosas suprimidas e os sacerdotes obrigados a separar-se de Roma e a prestar juramento de obediência às autoridades civis e anticlericais. Naturalmente, a maioria do clero francês manteve-se leal à Igreja de Cristo, o que levou à execução de milhares de sacerdotes. Numa só noite, foram assassinados 3 bispos e 200 sacerdotes, tal era a sede de sangue daqueles revolucionários. Entre estes mártires, encontrava-se S. Salomone Leclercq, religioso que foi decapitado nessa noite e que foi recentemente canonizado pelo Papa Francisco.

Curiosamente, a Revolução Francesa tem vindo a ser branqueada há décadas pelos programas oficiais das disciplinas de História do 3º ciclo e dos liceus, que procuram obrigar os professores a colocar de lado os factos históricos e a apresentar a revolução como um evento libertador e glorioso. Por exemplo, o programa em vigor para o 3º ciclo, omite a revolução inglesa e dá indicações para que a Revolução Francesa seja apresentada “em termos de grande generalidade, acentuando-se, sobretudo, os seus contributos para o mundo contemporâneo” Quais são estes contributos? O programa não refere, mas dá a entender que a Revolução foi fundamental para “a construção das democracias modernas”. Já o programa para a disciplina de História B, propõe que as aulas sobre “O iluminismo: a apologia da razão; o primado da ciência” (sic) sejam complementados com a audição de músicas de intervenção, enquanto o programa de História A define como “aprendizagem estruturante” o seguinte: “compreender o fenómeno revolucionário liberal como afirmação da igualdade de direitos e da supremacia do princípio da soberania nacional sobre o da legitimidade dinástica”. A absoluta ausência de contraditório e de referência à face mais sombria desta revolução, só pode ser explicada por uma opção política clara, que pretende favorecer uma leitura ideológica da história ao invés de uma narrativa que deveria ser imparcial e fiel à verdade dos factos. Não admira que assim seja, quando um dos “objectivos gerais” da disciplina de História para crianças de 13 anos é “desenvolver a noção de relativismo cultural”, em particular, “compreender o carácter  relativo dos valores culturais em diferentes tempos e espaços históricos” (sic).

Quase 100 anos depois daquele assalto à Bastilha, os ventos ideológicos revolucionários continuavam bem presentes entre o povo francês e deram origem, na sequência da derrota francesa na Guerra Franco-Prússiana, a mais um triste episódio esquecido pela História (pelo menos, pela que é ensinada aos nossos filhos): a “Comuna de Paris”.

Celebrou-se há poucos dias (28 de Maio), o 150º aniversário do fim desta guerra civil, um acontecimento que teve poucos meses de duração mas que, nem por isso, deixou de ser marcante e de merecer permanecer na nossa memória colectiva, visto ter sido, certamente, o período de maior violência anticlerical desde a Revolução Francesa.

Na sequência da já referida guerra, o imperador Napoleão III é capturado e tem início a 3ª República, que desagradou o povo de Paris. Assim, no dia 18 de Março de 1871, dá-se uma insurreição contra o Governo apoiada pela Guarda Nacional e é criada a Comuna de Paris, um Governo autónomo contra a burguesia e a aristocracia e considerada como um dos primeiros exemplos de “Ditadura do Proletariado”, o que o leva a ser recordado com nostalgia por alguns radicais. O Bloco de Esquerda, por exemplo, não deixou de assinalar com grande entusiasmo o aniversário da Comuna no seu site, já o PCP apelida-o de “uma das páginas mais gloriosas da história mundial”.

Esta insurreição, liderada por revolucionários socialistas como Auguste Blanqui, teve um forte pendor anticlerical, tendo abolido a Concordata de 1801 e tendo expropriado – uma vez mais – a Igreja das suas propriedades, vandalizando-as e transformando igrejas em prisões ou oficinas.

Mais grave do que isso, no entanto, foi a execução sumária de um Arcebispo, quatro padres e cinco dominicanos, bem como 8 leigos que trabalhavam com os referidos dominicanos, entre os dias 24 e 25 de Maio. No dia 26, foi atingido o pico do ódio revolucionário: foram assassinados a sangue frio pelo povo enfurecido e pelos guardas revolucionários 50 reféns, entre eles, 10 membros do clero. Ao todo, ao longo dessa semana – justamente recordada como “semana sangrenta” – foram assassinados 23 sacerdotes ou religiosos, vários deles com causas de beatificação a decorrer neste momento. Felizmente, muitos destes mártires, tiveram a possibilidade de se confessar uns aos outros enquanto estavam presos e até de receber o viático clandestinamente. Além disso, ao ódio dos carrascos, responderam sempre com o Amor cristão inspirado em Nosso Senhor que, traído, cuspido, humilhado e crucificado, disse “Pai, perdoa-os porque não sabem o que fazem” (Lc 23:34) antes de exalar o último suspiro salvífico naquela Sexta-feira. Dizem-nos as cartas dos mártires em questão que estes perdoavam e rezavam pelos seus assassinos, tal era o grau de configuração a Cristo daqueles santos homens.

Como foram aqueles homens revolucionários capazes de tanta violência com os seus irmãos que não fizeram nada a não ser dedicar generosamente a sua vida ao serviço do povo de Deus e dos mais pobres e indefesos da sociedade? Não creio que haja uma resposta óbvia, mas é certo que algumas ideologias e a total ausência de Deus do coração do homem, podem reduzi-lo à mais arrepiante barbárie. As ideias perigosas que alimentaram a Revolução Francesa e a Comuna de Paris foram imediatamente condenadas pela Igreja em diversas ocasiões. Um significativo sumário de algumas ideias perigosas daquela época e dos documentos magisteriais que as analisam pode ser encontrado no Syllabus Errorum do Beato Pio IX. De um modo ou de outro, após Pio IX, praticamente todos os seus sucessores alertaram para os riscos que aquelas ideias iluministas representavam para a sociedade. A história, infelizmente, acabou por dar-lhes razão.

As ideologias, muitas vezes, matam. Humana e espiritualmente. É muito importante recordar episódios como estes que mostram a animosidade que certos contextos culturais, hostis à lei moral natural e ao bem comum, podem despertar no homem com o coração corrompido pelo pecado original. Não se trata de pluralismo de ideias, tratam-se de perigos objectivos que a experiência histórica nos revela. Também hoje, as ideologias dominam a nossa cultura (e programas escolares) e continuam a matar espiritualmente, a atacar a Igreja e a ameaçar a vida dos mais frágeis, ainda que de forma mais discreta. Tenhamos nós a virtude necessária para os defender, para denunciar a doutrinação ideológica a que os nossos filhos estão sujeitos – e para rezar pela conversão e pelo perdão dos nossos carrascos.

Os principais factos relatados sobre a Comuna de Paris foram recolhidos neste artigo, que trata este episódio com maior profundidade.

Bernardo Serrão Brochado