O homem que não era capaz

por António Pedro Barreiro

Conheci o Padre João Seabra em Abril de 2017. Eu precisava de um trabalho que me ajudasse a pagar o mestrado e ele, então Director do Instituto Superior de Direito Canónico (ISDC) da Universidade Católica, procurava um secretário para o Instituto. O Padre João soube quem eu era, mandou-me chamar, fez-me umas perguntas e, no fim, teve a bondade de me contratar.

Com ele trabalhei durante dezasseis meses, que correspondem, provavelmente, ao melhor tempo da minha vida. Na primeira semana, um amigo seu, grande advogado da nossa praça, chamou-me à parte e disse-me: “És tu o novo secretário? Tens o emprego que eu gostava de ter”. Eu acreditei.

A Igreja em Portugal deve ao Padre João Seabra, nos seus quarenta e quatro anos de exercício fiel e apaixonado do sacerdócio, mais do que eu sei dizer num artigo. Foi um capelão decisivo para gerações de alunos da Universidade Católica e, depois, um Prior carismático em Santos-o-Velho e na Encarnação. Deu um contributo imprescindível para o caminho das Equipas de Nossa Senhora – de casais e de jovens – e fundou vários campos de férias. Trouxe para Portugal o movimento Comunhão e Libertação e, desse modo, ajudou a formar um friso de líderes católicos cultos e santos, com os pés bem fincados nos meios culturais e na vida política. Travou com inteligência e valentia os combates cívicos em defesa da vida e da família, sem tibiezas nem línguas-de-pau. Formado em Roma, em Direito Canónico, historiou com minúcia e beleza literária a situação dos católicos durante o regalismo pombalino e a Primeira República. Foi defensor do vínculo no Tribunal Patriarcal de Lisboa, Director do ISDC e Cónego da Sé. Ajudou ainda a fundar o Colégio de São Tomás, entregando-se com paixão à ensino das novas gerações, educando para a liberdade, para a responsabilidade, para o amor à Verdade, ao Bem e à Beleza.

Foi, sobretudo, um director de almas abençoado com um olhar penetrante e arguto e com uma língua que a Providência eximiu de quaisquer salamaleques ou ataduras politicamente correctas. Tomado de amor a Cristo e de fascínio pelo mistério do Homem na sua totalidade, acompanhou centenas de vidas, ouvindo e aconselhando, protegendo sempre a dignidade e a liberdade daqueles que guiou.

São tantos que lhe devem tanto que, acerca de qualquer destes elementos do seu percurso, não faltarão vozes que saibam testemunhar, com mais eloquência e mais autoridade do que eu, a grandeza de alma do Padre João Seabra. Espero que o façam, particularmente nestes dias, porque é hora de agradecer todas as graças que, pela mão do Padre João, Deus fez descer sobre o Seu povo.

E, no entanto, falar dos frutos, dos feitos, das qualidades não parece senão arranhar a superfície de uma vida cuja grandeza não está fora, mas dentro.

A acreditarmos em Aristóteles (e eu, ao menos quanto a isto, acredito), os seres compõem-se de substância e acidentes. A substância é como que o núcleo fundamental do ser, isso que o faz ser o que é, e os acidentes são as propriedades colaterais que ele transporta. Eu posso, portanto, dizer que Fulano é inteligente ou que Sicrano é divertido, e achar até que tais qualidades são profundamente marcantes nos seus respectivos caracteres. Mas se, um dia, Fulano perder brilhantismo e Sicrano deixar de ter graça, por muito que eu lamente a perda de tais predicados, não posso deixar, ao mesmo tempo, de me espantar e comover por ver que Fulano, sem o mesmo brilho, continua a ser Fulano e que Sicrano, agora desengraçado, permanece tão Sicrano como antes. O verdadeiro milagre não é que Fulano seja inteligente. É que Fulano seja Fulano. Gente inteligente, há muita. Fulano, só há este. E, se ele quiser fugir a ser Fulano, ninguém pode ser Fulano em seu lugar.

O Padre João Seabra foi, para mim, imagem viva de tudo isto. Nele, vi acontecer diariamente esse mistério espantoso que, removendo do olhar, uma a uma, as qualidades colaterais com as quais a nossa admiração habitualmente se distrai, deixou à vista o osso, o núcleo, o cerne da questão, de uma forma tão viva, tão autêntica e tão fundamental que não podia ser ignorada.

Ao longo de anos de doença degenerativa e incapacitante, o Padre João Seabra foi perdendo a soltura do verbo e a eloquência dos sermões. Sábio como sempre, viu-se muitas vezes remetido ao silêncio por impossibilidade física. Perdeu capacidade motora, logo ele, que tanto se multiplicara em marchas, peregrinações e procissões. Perdeu autonomia, por vezes em graus que o moderno culto da auto-suficiência consideraria indignos e intoleráveis. Perdeu visitas, influência, e até algum prestígio. Não foram poucas as vezes em que vi quem se lhe dirigisse com pressurosa condescendência, tomando-o por um inválido, uma sombra do que já fora, desviando o olhar com medo e pudor da fragilidade, “coitadinho, quem o viu e quem o vê, realmente não somos nada, ah pois não”. E, no entanto, por detrás da vulnerabilidade e da comiseração, a substância, o núcleo fundamental lá permanecia, teimosamente.

Na comovida homilia que pronunciou aquando da sua despedida da Paróquia da Encarnação, o Padre João Seabra dizia: “Então, o que é que me resta? Resta-me a minha vida dada a Deus. Como no primeiro instante. A minha vida dada a Deus, para que Ele disponha. Para que a utilidade, a atribua Ele e não a minha interpretação de mim próprio, nem a ideia que os outros fazem de mim. Mas Ele. Na utilidade da vida que não tem outro propósito senão servi-Lo e oferecer-se por Ele e dar-se por Ele”.

Que bela lição. Tremenda, dramática e, por isso, tão bela. Que se vão os dons. Que se vá a memória dos feitos. Que se vão as glórias, as conquistas, os triunfos. E, quando a poeira assentar, ficará apenas o que era desde o princípio: um homem e o seu Deus, uma vida dada por amor, sem reservas, sem condições, sem cláusulas. Uma vida gasta a levar Deus aos homens e os homens a Deus, um Sísifo diante de uma tarefa sem termo, mas com sentido, com amor – e, por isso, com uma imensa alegria.

Uma vez, íamos os dois num corredor da Católica, o Padre João num dia particularmente difícil de dores e cansaços, e cruzámo-nos com uma funcionária que nos desejou um bom fim-de-semana com aquele alívio de quem já não pode ver trabalho à frente. O Padre João disse-me depois, condoído: não sei como é possível viver assim, passar a semana à espera do Sábado e o ano à espera das férias, e repetir esta rotina sem ter um sentido, uma meta. Ele tinha-a, oh se tinha, e, se Deus quiser, a esta hora já a alcançou.

Guardo com especial comoção a memória de acolitar em Missas celebradas pelo Padre João. Vê-lo elevar a hóstia com titânico esforço, como se, nela, estivesse contido o peso do mundo inteiro, e olhá-la com o seu olhar penetrante, concentrado, lutando por articular com clareza as palavras que transformam o universo: “Isto é o Meu Corpo, que será entregue por vós”. De cada vez que o ouvia, assolava-me a verdade de tudo aquilo. Sim, era o seu corpo, doído e macerado, perfeitamente unido ao Corpo do Senhor e entregue em resgate pela salvação de muitos. Entregue por mim.

Na vida e na morte, o Padre João Seabra foi, para mim, manifestação deste mistério profundo e quase escandaloso, de que jamais me tinham falado com tamanha grandeza. Que a vida só é nossa quando é entregue; que os dons só se ganham quando são derramados; que o trigo só se cumpre quando se deixa morrer. Destas coisas, que a erudição e a competência não sabem dizer capazmente, falou-me o Padre João através das suas incapacidades.

Certa vez, fomos a Roma, integrados numa peregrinação de aniversário da Católica. Fomos, isto é, foi o Padre João e eu atrás, enquanto secretário ou, como ele por vezes dizia, escudeiro. Quando o Padre João soube que era a minha primeira vez em Roma, insistiu em que furássemos o programa e fôssemos à Basílica de São Pedro. Tenho-me lembrado muito dessa visita. Ele, de cadeira de rodas, em frente à Pietà, a explicar-me cada pormenor como quem introduz um discípulo num mistério quase indizível. E eu de joelhos, calado de comoção, a beber-lhe cada palavra como uma graça que me chega imerecidamente.

É exactamente assim que me sinto nestes dias. Que um homem tão extraordinário tenha cruzado a minha vida é um dom tão surpreendente quanto imerecido. Deus me ajude a viver assim, como ele me ensinou. E, ao Padre João Seabra, que a Mãe do Céu o tenha nos braços, como na Pietà que ele me mostrou.

in Observador