A propósito do novo itinerário da Procissão do Corpo de Deus

É estranho como tem alastrado a polémica sobre a alteração do itinerário da Procissão do Corpo de Deus introduzida este ano… Muitos consideram que a Igreja não quis afrontar um terreno já islamizado, e, por isso, a procissão não passou pelo Martim Moniz, como tem sucedido desde há alguns anos, aliás, sem nunca se ter registado qualquer problema.

Convém recordar que a Igreja que organiza a procissão do Corpo de Deus é a mesma que, a partir da capela da Senhora da Saúde, no “coração” do Martim Moniz, organiza a procissão da Senhora da Saúde, uma das mais concorridas da cidade; e por lá passa também, a caminho da Calçada dos Cavaleiros até à Graça, a procissão do Senhor dos Passos, no 2º Domingo da Quaresma, esta também presidida pelo Patriarca de Lisboa. É a mesmíssima Igreja guardiã da Capela da Senhora da Saúde, solar da Mãe que cuida com igual solicitude de todos os seus filhos qualquer que seja a sua religião.

A Procissão do Corpo de Deus é a mais antiga e solene da cidade de Lisboa. O rei Filipe I, numa carta às filhas que continuaram em Espanha, compara a procissão de Lisboa com a da capital espanhola, reconhecendo ser a de Lisboa muito mais solene e concorrida, “ainda que – observa – tenha visto pouco, por ir num dos extremos e esta ser tão grande”.

Muitos recordamos ainda a alegria dos católicos de Lisboa quando, em 1973, depois de alguns anos de interrupção, o Cardeal Ribeiro restaurou a Procissão do Corpo de Deus que passou a realizar-se, em cada ano, numa Paróquia da Cidade.

Foi em 2003 que a trouxemos para a Baixa-Chiado. Nesse ano, a Missa foi celebrada no Largo de São Domingos, seguindo-se a procissão com o seguinte itinerário: Rossio, Rua da Prata, Rua da Conceição, Rua Nova do Almada, Rua Garrett até ao adro da Basílica dos Mártires, onde o Senhor Patriarca, o Cardeal Policarpo, abençoou a multidão que se apinhava Rua Garrett abaixo, até aos Armazéns do Chiado.

O sucesso foi tal que, mesmo tendo havido no Conselho Presbiteral alguns padres que defendendo que se voltasse à modalidade anterior – ser cada ano numa paróquia de Lisboa – o certo é que a procissão se fixou na Baixa-Chiado, organizada pelas Irmandades do Santíssimo Sacramento, passando a partir de 2013, a desenvolver-se sob a orientação do Cabido da Sé Patriarcal.

Em 2004 e 2005, a procissão ainda foi organizada a seguir à Santa Missa, nesses dois anos celebrada na Praça do Município. Depois, mais por questões logísticas que litúrgicas, a Missa começou a ser celebrada na Sé Patriarcal, da parte da manhã, e a procissão, à tarde, saindo da Sé e regressando à Sé. O itinerário era semelhante ao deste ano: Largo da Sé, Rua das Pedras Negras, Rua da Madalena, Rua dos Condes de Monsanto, Praça da Figueira Rua da Betesga, Rossio, Rua do Ouro, Rua da Conceição, Rua de Santo António da Sé, Largo da Sé.

Em 2015 – só em 2015! – em virtudes da reabilitação da Rua dos Condes de Monsanto, a procissão começou a passar junto ao Hotel Mundial, no Martim Moniz, entrando depois, pela Praça da Figueira, na Rua da Prata, para que o percurso não fosse demasiado extenso. O anterior trajeto, o que bordejava o Martim Moniz, junto ao Hotel Mundial, por razões circunstanciais – as obras referidas e a proveta idade do anterior Patriarca, o Cardeal Policarpo, e de alguns cónegos – tem, pois, uma “tradição” de 10 anos. Faz sentido a polémica gerada? Não será uma tempestade levantada em copo de água? A quem serve esta gritaria? Demos graças a Deus pela fé deste povo de Lisboa, que, qualquer que seja o itinerário, na Baixa-Chiado ou onde for, acorre aos milhares para louvar Jesus Sacramentado.

 

Paróquias da Baixa-Chiado, 14 de Junho de 2026

Cónego Armando Duarte

Padre Mário Rui Leal Pedras

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